Na sua varanda sem céu, certa vez, você se sentou
naquela cadeira sem fundo. Me colocou no seu colo e me deu o abraço que
disparava corações em mim como se eu tivesse um em cada nó de veia. E
me disse, com sua voz tão bonita, a mais bonita que eu já ouvi, que eu
tinha subido todos os seus andares. Eu entendi que você era o homem da
cobertura de aço e eu uma espécie rara de passarinho que tinha algum
tipo de chave que se autodestruiria em poucos segundos. E eu entendi
também que agora que tinha chegado ali, só me restava pular, já que
ninguém aguenta o alto tão alto muito tempo. A vertigem que era o nosso
amor. Minhas olheiras, meu cansaço, meus quarenta e dois quilos.
Eu
poderia morrer porque você tinha uma carninha mais mole atrás da sua
orelha direita e isso me impossibilitava, dia após dia, que eu vivesse
sem sentir você o tempo todo. Mas quem é mesmo que morre dessas coisas?
Não, não podemos, com tanta coisa pra fazer, os meninos de dez a vinte
dias, os bares, e almoços, o Pilates, a dança, os empregos, escrever,
tudo isso que é minha vida antes e depois de você. Tudo isso que daqui
a pouco, quando a sensação desgraçada de absurdo e solidão passar, tudo
isso volta, se acomoda, a agenda mágica, o gostosinho no peito,
esquecer você todo dia um pouco pra vida e todo dia muito pro dia. Mas
agora, hoje, guarda isso, eu amo demais você. Por que escrevo? Porque é
a minha vingança contra todas as palavras e sensações que morrem todos
os dias mostrando pra gente que nada vale de nada. Toma esse texto, o
único lugar seguro e eterno pra gente. (Tati Bernardi)
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